Homo Homini Lupus*

14:00:00 Eloísa Cardozo 0 Comments


    Era sexta-feira de lua cheia, dezenove horas, faltavam apenas três para que a transformação começasse. Não que fosse algo fácil, era dolorido, mas desde que matei o antigo líder e me tornei chefe da Praetor Lupus tudo ficou mais fácil para mim, nada vai me tirar daqui, eu respiro poder.
     Os acordos haviam sido fechados e agora que aqueles morcegos centenários não podem se aproximar de mim e meus seguidores, sair na noite de lua cheia pra espalhar licantropia a mundanos fracassados como eu costumava ser, se tornou mais fácil o que torna as próximas aventuras ainda mais divertidas, ter o poder de me vingar de todos que me fizeram mal é a melhor parte, uma vez por mês eu sou o que eles mais temem. Caos, é o que se vê nos jornais no dia seguinte e saber que eu causo esse caos torna a vida mais divertida. Humanos são maus, eles fazem mau a sua própria espécie, eles matam uns aos outros, maltratam uns aos outros, eles me enlouqueceram quando eu era um deles.
     Faz um ano que sai do hospício, oito meses que sou lobisomem e seis que sou o líder e cada dia que passa tenho mais vontade de vingar Licaonte, nosso eterno mestre, pai dos lobos, transformado por Zeus, Deus dos humanos, esse que nos colocou no mundo, através dessa doença para nos vingarmos dele através de seus filhos.
      Essa noite não tenho amarras em meus pulsos, pela primeira vez desde que me tornei um lobisomem. Os meus já cuidaram disso. Olho meus pulsos e vejo a marca da prata usada para me machucar, como eu poderia perdoar algo que faz isso com seus diferentes? Estou cheio de ódio, encaro a parede enquanto volto a mim e enxergo alguém vindo em minha direção. Srta. Rose, minha empregada como sempre muito atenciosa, trás meus remédios, tomo todos como sempre, mas sinto seu pânico e quase instantaneamente falo com minha voz mais amável:
       - Srta. Rose, você não gostaria de tirar o resto do dia de folga, você pode voltar na segunda ao amanhecer, vá visitar sua família sei que sente saudades e você sabe que hoje preciso de um tempo para mim mesmo, nunca faria mal para você pois és a única que cuidou de meus ferimentos, quando todos só queriam me matar, mas a final são isso que anjos fazem, protegem seus escolhidos.
       - Não senhor, sei que é isso que deseja mas meu turno termina só amanhã ao meio dia e enquanto passa por sua transformação devo ficar ao seu lado e chamar ajuda se necessário, todo mês isso se repete e já sei como lidar.
         Fiquei paralisado, como ela ousa me desobedecer? Como ousa me dizer que sempre esteve comigo quando nada havia além de correntes de prata em meus pulsos?
         - Saia já daqui sua ingrata, preciso de sossego - gritei, já começando a sentir as primeiras dores da transformação- Saia ou será minha primeira vitima essa noite, não é a toa que seres como você foram expulsos do céu. Saia. - isso foi a última coisa que consegui falar.
         Meu braço ardia, parecia prata era prata, estavam inserindo prata em meu sangue ao mesmo tempo em que a transformação iniciava, eu comecei a suar frio, minha temperatura mudou, causando-me um choque térmico interno, aquela maldita substancia iria me matar, tentei lutar com Rose arrancando a seringa de sua mão, joguei- a longe e me pus em cima da traidora, minhas unhas já começavam a crescer mas eu estava perdendo a força, eles estão me matando. Eu estava tomando minha forma, logo eu acabaria com todos eles, finquei minhas unhas no rosto de Rose e mordi seu pescoço tentando arrancar toda carne que poderia estar ali, mas alguém me puxou e me enfiou algo, provavelmente uma faca, senti a ardência e soltei um uivo, me virei e me soltei de seus braços, jogando o homem longe, por onde ele teria entrado? Embora eu já não sentisse mais a ardência do que quer que seja que ele tenha me enfiado, ainda me sentia fraco pela prata em meu corpo, aos poucos meus olhos foram fechando e senti que ia desmaiar. Antes de ficar completamente inconsciente ouvi mais vozes vindo em minha direção.
          - Aconteceu de novo? - disse a voz - Temos que tira-lo daqui, a um ano ele chegou como um paciente com esquizofrenia mas aos poucos ele só piorou, desde que desenvolveu a licantropia clínica todo mês ele age, como um lobisomem, o caso dele é raro e só piora, quantos médicos ainda vamos perder por causa dele, não podemos...
          



          
       


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